Estrelas
Do mundo que inveja o nosso amor, do mundo que te cobiça, eu prefiro as estrelas. Elas nos sentem e observam e guardam, meu amor, aguardam ao nosso toque silencioso e às explosões seculares que se dispersam através do horizonte e da madrugada em um desespero particular - o silêncio é a tua respiração e o que explode é a minha pele ao encostar na tua. Arrepio. Eu inalo teu ar. Você traga meu oxigênio. Queimamos nossos corpos. Sem pudor ou pretensão. “Eu amo você”, digo rouca por emoção. A insanidade que nos toma tem por nome sentimento. Amor, paixão, a confusão das histórias que em momento algum é ruim. O teu eu te amo é um gemido e eu sorrio, pecadora e pura em meu francês muito chulo. Você ri, cansado, do meu êxtase prolongado. Das minhas palavras entorpecidas. Do meu rumo sem prumo, sem poesia maior. Desejo te dizer da teoria sobre o meu ápice estar atrasado e distante como o brilho de um estrela se arrebentando a anos-luz, mas me perco, me esqueço, como nos segundos em que o coração palpita acelerado e quer escapar pela boca entreaberta. E escapa. Boca tua. Peito teu. É o beijo. A língua. O idioma. Você confessa um mundo enquanto fecho os olhos e te aperto contra mim, em mim, até que fique, como eu sei que ficaria sem precisar do abraço suplicante, mas te envolvo em meus braços e nos mantenho unidos, um só corpo, uma só alma, um só instante; pela verdade que sai dos teus lábios, pelo meu choro contido. Choro que não é triste. Lágrima que não arde. “As estrelas também nos invejam, coração, pela nossa entrega onde um mais um é um, pelos nossos astros e céus que se envolvem, inseparáveis, absurdos, e bonitos”.
Anotação para o teu criado mudo II

Eu não preciso te dizer meus ais. Tão menos te entregar os ases em mãos. As minhas penas e asas, decadentes, foram ao chão. Todo o piso é teu. Toda a essência resultante do esmagar, também. (Você sabe que perfumes são assim, mastigados e machucados, até a beleza surgir do ato desesperado e desesperante). Eu te amo como quem ama ao número cem e descobre-se, vez ou outra, dizendo irrealidades e sens. Sens. Sens. Sentimentos, segredos, seivas e vitalidades. Eu te dou como quem dá ao outro o que possui de mais sincero. E minha sinceridade é inteiramente assim: silêncio. Que bons amantes pronunciam-se nos gestos, amor.

O seio do caos (ou o caos do seio)

O teu toque ultrapassa meu corpo puro - puro corpo, que corpo é alma, pura alma, que alma é toque - tanto quanto meus lábios ultrapassam as  tuas olheiras, beijadas enquanto você dorme e sonha com o que é teu, em mim. A delicadeza dos teus dedos em cada um dos meus sinais e cicatrizes, e eu que até pouco acreditava não mais me deixar alcançar, e eu que até pouco não acreditava atrever-me a. A nossa insônia é tão longa, amor. O teu calor é tão meu, os meus monstros e labirintos são tão teus, e eu ainda me questiono como discernir - você de mim e, sem resposta, me calo. Sinto o cheiro que não é teu, que não é meu, que é a ameaça de um amor, sintoma nos meus olhos que, às vezes, te veem e querem chorar. Um choro tranquilo. De quem se deixa espetar no dedo pelo espinho da rosa. No teu peito, maculado por minhas pétalas e dentes. Sutileza feroz é um alcance tão lírico e eu sei que você poesia o que eu poemo entre o seio e o caos, entre o caos e o seio. Eu posso te dissertar sobre pecados originais e em como as letras do teu nome se encaixam em cada, e em como eu me marco pecadora a cada noite e dia, consciente ou in. Diria também sublimidades. Diria também urgências. Diria também silêncio. E você aprofundaria, como de hábito e fulgor, essas tuas retinas em mim. Eu não sei separar o trágico do belo e até gosto das mortes de Shakespeare, coração. Peito sobre peito, leito sobre leito, cova sobre cova. A verdade é que jamais seríamos rasos - depois de uma, duas, três vidas, uma, duas, três além-vidas. E assim o Big Bang, e assim o Big Crunch. Encaro as linhas das minhas palmas, encaro as curvas das minhas digitais. Eu te quero tão no pós. Encaro os poros, toco o nariz nos pelos, sinto toda a trilha de lágrimas acumuladas e sorrisos presos. Da intensidade você sabe, da intensidade você tem o gosto - na língua que caça a minha. Eu também sinto o sangue correr, e falo do sangue teu, eu também sinto a veia pulsar, e falo do meu punho. (Uma explosão dentro de uma implosão dentro de uma explosão dentro de uma implosão dentro de nós).

Anotação para o teu criado mudo
Nossas madrugadas têm início após o pôr-do-sol. No rastro de luz passada engolido pelo horizonte habita o silêncio, a mim não interessam ponteiros e relógios e boas noites em jornais. Neste espaço (acusadamente nosso), as metáforas são palpáveis e os papéis queimados. Penso que só nos existe sinceridade. Penso que só existimos sinceros. Penso que certos nós são corretos. Pode-se chorar um mundo em segredo enquanto a lua é alta, coração. Abre a garganta, liberta o grito preso: sou teu seio. Teu. Seio. Entre peitos, cabelos e lábios com gosto de lágrimas e café. Sou tua origem, sussurrando sempre que tudo bem ser desconexo, tudo bem ser torção, tudo bem ser arte largada nos piores cômodos da casa. Talvez eu te escreva poesias no fundo da caixa de chás, porque sei que você só a encontrará em momentos de necessidade e desilusão. A gente precisa de sensibilidade na medida inexata e acidental - (e as xícaras e infusões seriam teu último socorro). O meu gemido dolorido sempre murmura, please, don’t leave me now, quando sei que você não me deixa nunca. Gosto do teu toque, da tua urgência querendo me ser: do teu desespero em soprar em mim, a mim, por mim. Soa bonito, como tua voz sonolenta chamando meu nome, consciente ou in, no escuro. O teu ronronar é tão sutil quanto tudo isto escrito. Mais ainda porque ali ninguém nos ouve, porque ali ninguém nos vê. A gente pode nascer e renascer, eu ainda ouço seu respirar: na ausência ou no estar. É tanto o que há boca, corpo, alma adentro. É tanto o que te exponho de olhos fechados porque você me é interior demais. Qualquer beleza é tua. Qualquer desventura também. O choro é sempre entre os teus braços e eu, confessadamente, acredito que isto me mantenha pura e sã. Eis que minhas insônias ou sonos são sobre você, contigo sob mim. A sobrevivência é mais poética. O sentimento, abrigo. Meu cansaço aguarda o teu cansaço, coração.
Vai lá

A bordinha do pão, até pouco menos de dois centímetros pra dentro, não esquenta e dá pra pegar da torradeira com a mão mesmo. Daqui a pouco começam os pedreiros e a empregada e infinitos passos. Sempre logo que eu acordo eu penso que nunca mais vou acordar. Nunca mais. Mas a bordinha do pão, os pedreiros, a empregada, os passinhos. Isso é só o começo, daqui a pouco também tem os passarinhos. Tem também um lance do teto começar a pesar em mim, como se até o estado de não ter estado nenhum fosse insuportável. Estômago não é lugar de se guardar vida, meu estômago explica pra mim já doendo de uma dor sempre nova, como se todo dia eu tomasse um pouquinho de susto por nascer. Eu fico sem saber qual seria a outra saída então. Ou entrada. É tudo a mesma coisa e sempre. E lá vem a bulimia de não guardar qualquer que seja a sensação, até a de não ser nenhuma. Pulo logo e me chacoalho, uma tentativa de esvair de mim esse sebo de coisas que me incomodam e grudam em mim e cada vez mais e vou me derrubando pelo dia pra poder, mais tarde, sossegar de novo. 
Meu quadrado de ar e silêncio. Pra fora desse quadradinho ainda escuro tem tudo aquilo que já vi ontem e ontem e ontem e ontem e não cheguei a conclusão nenhuma. Eu não vou acordar nunca mais. Vou ficar aqui, onde a pressão não cai, os sinais de procura não gemem, as pessoas não me convidam pra sair, gente não inventa de gostar ou não de mim. Deitada não tem intenção, queda, dor no pescoço, conta bancária, gente que me olha como se já tivesse comido meu cu bêbado numa festa e guardasse esse meu segredo. É contra esse tipo de olhar de corujas escrotas que eu nunca faria nenhuma das coisas acima. Mas por alguma razão, é justamente por levar esses olhares a sério demais que sinto que perco parte do que poderia ser uma história filmada por anjos metidos a documentaristas de meninas quaisquer. Ninguém tem segredo nenhum a respeito de mim mas eu tenho tantos que acabei com tendinite de tanto por pra fora. Meu calo de vômito é no punho. Vomitar pelos dedos. O único jeito de não ter tanta vergonha de ser como sou, ainda que me perguntem “você não tem vergonha de escrever essas coisas?”. Vergonha eu teria de andar de quatro cagada no meio da Olívia. Vergonha eu teria de ser contada por alguém que jamais me contaria tão bem e com tanta verdade. É isso ou isso. 
Vai. A bordinha do pão pra pegar com os dedos sem queimar. Depois tomar chá gelado no gargalo da garrafa sem saber se está certo fazer ou dizer assim. Depois os e-mails todos. Vai lá. O jornal. Saber um pouco de política só pra não fazer feio em jantares e ir a jantares só pra não fazer feio com amigos e ter amigos só pra não fazer feio com a vida. Mas no fundo, uma vontade imensa de não fazer porra nenhuma dessas. Mas vai, dura tão pouco e quando acabar, não gosto nem de imaginar a saudade que vou ter de mim. Porque no fundo, no fundo, isso que pode soar como tristeza é só uma constatação corajosa de que dói sentir tudo e inclusive (ou principalmente) a nós mesmos. 
Logo cedo, ainda que seja meu horário estranho, vem ainda mais seco e cortante. 
Daqui a pouco, nem bem o sol foi da planta à direita do meu sofá para a planta à esquerda, já estou vivinha até demais. As maldades e ironias e desconfianças e ódios tomaram seu lugar. Chegou o sargento que mora na minha pele, analisando com cara de cabeleireiro gay qualquer ser ou alimento que me seja oferecido. Comer é o símbolo de qualquer coisa que queira entrar dentro de mim e tenho horror a todas mas a maior ironia da vida é que morremos se não nos cedemos à boca aberta. Pra proteger o que somos precisamos não proteger o que somos. Agora diz se não tem alguém rindo da nossa cara? Mãe, traz uma sonda e enfia na minha jugular, não quero mais que esses dias sejam culpa minha. 
O sol já está quase na minha porta. Já endureci o suficiente pra dizer que tenho horror aos escravos de palavras bonitas e ideias chatas. Aquele povo que não sabe o que falar do próprio nariz e diz apenas algo cabeçudo tipo “ele é adunco”. Tá, já sei que você decorou o dicionário, agora me explica o que você acha da porra do seu nariz? 
Já estou armada dos pés à cabeça e já posso sair às ruas com minha metralhadora e feiura. Me arrumar bonita ou com pouca roupa também acontece, mas só eu sei depois a bronca que levo. Ser feia e enjaulada nos meus ferros me possibilita não ganhar nada com isso, até porque o que se ganha é pura tiração de onda com a nossa cara. Ah, a vida sorriu pra você? Ela te ama? Espere um pouquinho, querida. Tão te enganando. Até estar aqui, até ser você, tudo uma ilusão. Até desistir. Tudo ilusão. Os anjos documentaristas escreveram isso no seu roteiro mas daqui a pouco vem a merda toda porque filme sem dar tudo errado nem a Disney faz. Nem a Globo. Ainda que eles enganem a gente no final. Agora vai saber, se no nosso final, não acaba alguma coisa mesmo dando certo, tipo brinde do cosmos. Mas daí é o fim e você já está tão cansado que só uma cama já pode ser um final feliz. A morte é o final feliz. 
Só dançar é de verdade, nem sei direito, mas sinto assim. Então me escondo em algum momento do dia e danço um pouco. Pra falar a verdade eu danço muito. Daí já é quase fim de tarde. Falta pouco. Eu nunca sei exatamente para o quê, mas me acalmo com a sensação. As sensações sempre sabem mais do que a gente pode saber. Talvez por isso elas sejam terríveis. Talvez por isso doam tanto meu estômago que se renega a acolher o impossível de digerir e classificar. Talvez por isso eu escreva. Talvez por isso eu não vá acordar nunca mais. Nunca mais. Até que eu descubro, quando o teto pesa e tudo aquilo, que o hoje só passa porque acordamos e assim se vai. Amanhã, amanhã. Pão e tudo. E passinhos e ônibus e passarinhos. Armaduras e belezas. E pensar que se você lê, meu amor, eu escrevo. E se você lê, meu amor, eu como. E se você lê, meu amor, eu continuo viva. É triste, mas se a gente pensar com carinho, é bem bonito.

Ela

Ela era uma daquelas mulheres com tendências destrutivas.
Um dia se olhou no espelho, não sabia qual era a mulher que lhe olhava de volta. 
O sangue desconhecido, falando em línguas desconhecidas, como fantasmas do passado.
Gostava de coisas quentes, de finais gloriosos, de uma mão na coxa a deslizar. E depois, um olhar lascivo e penetrante. Narrando histórias sobre olhos amendoados.
Era egoísta em sua dor. Preferia a derrota, a insistência no erro porque já o conhecia tão bem…
Já o enlaçava entre os braços com afeto. Não era por acaso. 
“Se eu pudesse sentir as coisas com a alma e não com o corpo.” 
Era este: o mistério de toda a sua vida, os segredos sórdidos espumando na garganta.
Se pudesse sentir a chuva com a alma e não com o corpo.
Se fosse sua alma a cair pela calçada e não o seu corpo.
Então, sentindo a grandeza como um arrepio pela espinha e não com seus olhos que cegavam o horizonte, assim, ela seria feliz. 

Aceito

Se a tua urgência não for deste mundo, eu aceito. Se o teu desejo abranger outros ares, outras formas, outros meios, eu aceito. Se você quiser atear fogo no apartamento só para a gente pular da janela sem precisar se declarar suicidas, se quiser futucar no monstro com a ponta do dedo ou do nariz, se quiser andar sem rumo e só seguir em frente com aquela necessidade de estrada e não de direção, eu aceito. Se quiser pacto, corte profundo, côrte e risos, a sorte de ser - história primordial, você bem conhece, história antropológica romântica, história filosófica, que de tão bonita e sublime chega a ser degradante -, eu aceito.
A gente pode ser maior do que qualquer “se” já escrito, meu bem.

Os monstros estão todos dentro do corpo, meu bem

A fatalidade da condenação por eu ser assim - tão oculta, tão fechada, tão obscura. A certeza de que minha dor concreta é abstrata e de que no interior minhas feras choram. Sozinhas. Encolhidas. Com os dentes à mostra. Prontas para fugir e prontas para atacar, como sempre pronta estou.

O ponto pulsante, a marca pungente, a quebra do pingente trazido no pescoço com o peso de uma vida inteira e com a cor de todo o sangue já derramado por minhas mãos. Não é verdade quando digo que só a mim eu firo, ou então você não esqueceria os olhos em cima dos meus com toda essa tristeza por me ver insana. A minha loucura te atinge e tinge de vermelho a tua tez, não tinge, meu bem? É que você me vê muito dentro, muito fundo, muito na essência. É que você me desbrava e descobre, e toca em partes jamais tocadas. É que você gosta de um perigo, menino… Ou então não soltaria as amarras da minha camisa de força. Eu quase te peço perdão. Sabia? Quase te peço perdão. É que no fundo quem segura a faca, quem destrava a pistola, quem solta das costas o para-quedas sou eu. 

É questão de aceitar-se. E eu me sei , meu bem, eu me sei.

Há muito me condenei, há muito cerro as grades dessa cela. E há muito deixei o sentido para quem entende de razões. Eu só jogo as incógnitas e vomito os monstros escondidos em mim para depois apanhar todo esse lixo animal (porque eu sou animalesca até no suor) e enfiar os restos goela abaixo, sem fazer questão de solução.

Ponha a faca no chão

vida
pulso
morte
coagula o sensível corte
em um segundo louco

‘A ironia de poder te ver sem tuas roupas, com teus segredos’. 
Eu cantei aos teus ouvidos cansados. Eu cantei à tua pele suada. Eu cantei ao teu romance escondido entre os meus lençóis, entre os meus amassados e as minhas madrugadas. 
Nus e secretos.
Meu bem e eu.
Mais bonitos do que pacto de sangue feito com corte na linha do amor da palma da mão esquerda. Mais suplicantes do que a garota solitária que por anos foi anti-pioneiros. Mais verdadeiros do que a ligação umbilical entre o ventre e o feto. 
Unidos pelo afeto. Rasgados pelo ímpeto. Descobertos. E todas as outras questões sentimentais envolvidas, jamais tocadas, mas intensamente absorvidas.
Como quem não atravessa, mas se deixa ver. Ou como quem atravessa, mas não se deixa tocar. Qualquer contrariedade dessas nos cabe e nos basta. Qualquer frase antagônica nos mexe, remete, aprofunda dentro da carne e bagunça. Logo na gente que adora uma confusão silenciosa, uma taquicardia desconhecida, um despertar que é só suspense.
Não tem cura para o ímpeto, medo, sussurro, melancolia, piano, borrado, cuspido, tragado, exaurido nosso, ma child.